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DE UMA DOR QUE NÃO PODE SER DUAS1

Rubens Marcelo VOLICH2


À memória de Piera Aulagnier


                  "O velho homem [...] despertou durante a noite naquele hotel de Gardona: uma dor violenta acabava de assaltá-lo. Seu corpo foi comprimido por fortes ondas, e era com extrema dificuldade que a respiração saia de seu peito oprimido. O velho homem alarmou-se pois ele sofria freqüentemente de caimbras biliares, e havia sido contra o conselho de seus médicos que, ao invés do tratamento prescrito na estação de águas de Carlsbad ele optara, por causa de seus familiares, por essa viagem para o Sul. Temendo um acesso daquela terrível afecção, ele tateava ansiosamente seu corpo obeso.
                  "Ele retomou o fôlego, e sua mão trêmula se afastou, mas a pressão ainda atrapalhava sua respiração; então, em meio a suspiros, o velho homem saiu com dificuldade da cama, a fim de movimentar-se um pouco; com efeito, quando ele ficou de pé, e ainda mais quando ele começou a andar, a dor atenuou-se". Em função do espaço exíguo do quarto, e para não incomodar inutilmente sua esposa, que dormia ao seu lado, "ele saiu tateando com precaução para, andando no corredor, acalmar seu mal-estar"3.
                  É desta forma que Stephan Zweig nos introduz à intimidade de Salomonsohn, que jamais poderia imaginar as conseqüências daquela decisão que tomara para aliviar suas dores insuportáveis.
                  Soavam as badaladas das quatro horas quando Salomonsohn alcançou o corredor completamente escuro. Sem necessidade de iluminá-lo, fiando-se em sua memória e em seu tato, caminhou algumas vezes de uma ponta a outra, respirando profundamente. Com satisfação, constatou que seus esforços surtiam efeito, aliviando o peso em seu peito. Preparando-se para retornar ao seu quarto, Salomonsohn foi surpreendido por um murmúrio, por um estalo, por um filete de luz que se filtrava por uma porta.
                  Envergonhado, temendo ser flagrado na condição em que se encontrava, instintivamente escondeu-se em um canto, sem ter podido evitar entrever a passagem fugaz de uma silhueta feminina que dirigiu-se, rápida e esguia, na direção de uma das portas da outra extremidade do corredor. Um ruído de maçaneta, o ascender de uma luz que, num pequeno lapso de tempo, apagou-se.
                  Um tempo porém suficiente para fazer com que Salomonsohn "começasse a balouçar, como se tivesse recebido um golpe no coração. Ali, na extremidade do corredor, ali, onde a maçaneta movera-se de forma reveladora, ali... ali encontravam-se os quartos de sua família". Para ele, não havia dúvidas: ele deixara sua mulher há pouco, mergulhada no sono. Logo, a figura que vira correr de forma aventurosa, saindo de um quarto estrangeiro, só podia ser de Erna, sua única filha de dezenove anos4.
                  O velho homem sentiu todo seu corpo arrepiar-se, gelado de terror. Não, não podia ser possível, ele devia ter se enganado. O que fazia ela naquele quarto estrangeiro, a não ser "Ele afugentava para longe de si, qual um animal perigoso, seu próprio pensamento, mas a visão fantasmática daquela forma fugidia agarrava-se imperiosamente a sua têmperas: ele não podia livrar-se dela, não podia escapar à seu poder". Tremendo, sentindo o suor invadir todos os seus poros, Salomonsohn sentiu o impulso de invadir o quarto da filha desavergonhada, socá-la com seus próprios punhos. Porém, cambaleante, e ainda com muita dificuldade, tudo que ele conseguiu foi arrastar-se até a porta de seu próprio quarto, até sua cama, e ali despencar, atordoado, como um animal que acabara de ser golpeado.
                  Tentemos deixar por alguns instantes nosso velho homem recuperar-se das emoções que acabara de viver. Saibamos apenas que aquela visão do corredor apossou-se de todo seu ser, marcando como ferro em brasa sua existência, produzindo nele sensações nunca experimentadas, conduzindo-o pelo caminho de sua própria destruição. Cada minuto de sua vida passou a ser povoado pela revolta, pelo ódio, pela vontade de vingança, e sobretudo pela incompreensão daquilo que descobrira. Emoções que brotavam em ondas gigantescas, embotando seus pensamentos, suas ações, impedindo inclusive que ele as comunicasse a sua esposa, a sua filha, a quem quer que fosse. Completamente tomado pela violência, Salomonsohn mergulhou na mais infernal das solidões.
                  Capturados pelo sofrimento de Salomonsohn, temos que resistir à tentação de acompanhá-lo a cada passo de seu martírio: ter que presenciar impotente o divertimento de sua filha e de sua esposa em companhia de um grupo de hóspedes entre os quais, segundo suas suspeitas, deveria encontrar-se aquele que maculara sua filha; o passeio junto ao lago e à cidade, no qual só conseguia pensar em sua vergonha e em sua vontade de vingança; sua conversa desconexa com sua esposa, ofendida com sua proposta incompreensível de que partissem naquele mesmo dia; sua decisão de voltar sozinho para sua casa; seu enclausuramento progressivo, sua recusa de conversar ou mesmo aparecer na rua, ou no trabalho; a apatia crescente pelo que acontecia no mundo, em sua própria casa, em seus negócios; e a batalha infernal que passou a travar, desde aquela noite, com seus pensamentos e com a própria vontade de permanecer vivo.
                  Mas é essa batalha que nos interessa. É ela que nos revela, com toda a violência, a intensidade do sofrimento do velho homem, e muitas das facetas de sua dor. Percebemos como em meio ao torvelinho de suas experiências, misturam-se em Salomonsohn o sofrimento de seus problemas biliares e as dores, em alguns momentos muitíssimo mais intensas, causadas pela «descoberta» das aventuras de sua filha.

Entre dor e sofrimento...

                  Não seríamos seguramente os primeiros a reconhecer a primazia da intuição do poeta na tentativa de apreender a natureza e a experiência humanas. É grande a vontade de simplesmente deixar-se conduzir pela magia de Stephan Zweig para tentar aprofundar nosso conhecimento sobre a dor e o sofrimento. Mas, talvez, justamente em reconhecimento por aquilo que ele nos transmite, possamos inicialmente começar questionando a tentativa sistemática de distinguir, como tentam alguns, dor e sofrimento, dor física e dor moral.
                  Encontramos na linguagem cotidiana, no discurso científico, e no léxico uma diferenciação constante entre dor física, "impressão desagradável ou penosa proveniente de lesão contusão, ou estado anômalo do organismo ou de uma parte dele", e dor ou sofrimento moral ou psíquico, assimilados a mágoa, pesar, aflição, dó, compaixão5. Essa distinção apresenta algumas variações em outras línguas como no francês, no inglês, no castelhano e no alemão, mas todas revelam em seu sentido latente a dificuldade de caracterização e apreensão da natureza e do sentido da dor. As diferentes definições encontradas revelam como traços comuns a natureza sensorial, a qualidade desprazeirosa, e o caráter subjetivo da dor, bem como a tentativa de situar a marca distintiva entre sua experiência física ou moral na existência ou não de uma lesão real do organismo. Como veremos, em meio a hesitações, Freud também esforçou-se, desde os primórdios da psicanálise, em estabelecer a especificidade da experiência dolorosa, tentando em 1926 distingui-la da angústia e do luto6.
                  A medicina tenta escapar das incógnitas e da dimensão imprecisa da experiência dolorosa ao utilizar o sufixo algia, derivado do grego, que busca caracterizar ou circunscrever a localização da experiência dolorosa. Lombalgia, mialgia, nevralgia, artralgia são termos que procuram descrever a dor localizada nas costas, músculos, nervos, concentrando a atenção terapêutica, de forma local ou sistêmica, para tais partes do corpo.
                  Na própria anamnese, a pergunta «onde dói?» orienta o raciocínio clínico para uma certa região do corpo do doente que muitas vezes, para a decepção do médico, nada tem a apresentar para justificar o sofrimento do qual aquele se queixa. Se, freqüentemente, a dor do paciente é uma experiência desconcertante para o médico é porque muitas vezes lhe é difícil formular as questões apropriadas para compreender - apreender junto - do que, afinal, sofre o paciente. Perguntar, por exemplo, «o que dói?» já ofereceria uma pequena fresta através da qual um outro sofrimento pudesse ser revelado pelo paciente, para além da expectativa de que em uma consulta médica investigam-se dores de partes do corpo real. Ao se iniciar a consulta simplesmente perguntando «o que lhe acontece?», aumenta-se ainda mais o campo de possibilidades para que a dor se torne compreensível tanto para o médico como para o próprio paciente. Depois de sua descoberta, no escuro daquele corredor, Salomonsohn sofria muito mais pela vergonha e pelo significado daquele encontro de sua filha com um estranho na madrugada, do que das dores biliares que o assolavam.
                  Assim, a experiência clínica nos mostra que do ponto de vista individual, a tentativa de distinguir dor e sofrimento, dor física e dor moral não corresponde à experiência do sujeito que sofre, empobrecendo a compreensão da mesma. Toda dor, mesmo aquela oriunda de uma lesão real, remete o indivíduo a suas experiências mais primitivas de desamparo, da mesma maneira que, ainda diante da ausência de lesão, todo sofrimento é também acompanhado por sensações corporais, difusas ou localizadas.
                  Nessas condições, devemos sobretudo tentar compreender a função das dinâmicas relacionadas ao fenômeno da dor na vida do indivíduo, desde o ponto de vista do desenvolvimento e da metapsicologia, bem como investigar as condições de representabilidade dessa experiência para o próprio sujeito e para aqueles que o cercam.

O sofrimento entre dois

                  Já na vida intra-uterina é possível detectar sinais e reações do feto que, por analogia com o comportamento e com a fisiologia do bebê sugerem que mesmo antes de nascer o ser humano «sofre». Por sinal, "sofrimento" é exatamente o termo utilizado pela medicina para indicar que uma anomalia da gravidez, do metabolismo materno (doença, intoxicação, ultrapassagem excessiva da data de termo) pode estar prejudicando o feto e vir a comprometer o bebê. Apesar da barreira placentária, o feto é influenciado pelos mesmos hormônios e componentes metabólicos que participam da experiência emocional da mãe.
                  Mas é importante também considerarmos que esse feto é também marcado por um outro tipo de experiência. Ele ocupa desde a sua concepção, ou mesmo antes dela, um lugar na fantasia e no desejo de seus pais. A dimensão de prazer e de desprazer é parte indissociável das representações que pai e mãe se forjam do filho que está por vir. Representações que são fruto da história de satisfações e de frustrações de cada um deles, e que, sobretudo, concebem um ser imaginário que nunca sofra, e que sempre satisfaça. Essa existência antecipada, sonhada, planejada prepara para aquele ser em gestação um contrato que quase sempre ele não estará em condições de cumprir.
                  Por sua vez, nas profundezas do ventre materno, o feto segue seu desenvolvimento, quase automático. Ele cumpre o planejamento inscrito em seus genes que determina principalmente suas características morfológicas, seus potenciais de desenvolvimento e eventuais predisposições patológicas. Ignorando o que lhe espera, o feto traz de sua experiência intra-uterina a marca predominante do equilíbrio, da quietude, da satisfação permanente de suas necessidades metabólicas.
                  O momento do encontro é violento para ambos. Para além de contrações e contorções, de uma mistura indescritível de líquidos, cores, luzes, ruídos e sensações, o primeiro olhar (que nem sempre existe...), de um e de outro, traz inevitavelmente, junto com a mais extrema emoção, nem sempre de prazer, a experiência da mais profunda decepção. Não, aquele bebê não é, e nunca será aquele ser tão imaginado e tão esperado, percebe um. Não, aquela nova «morada» nunca poderá acolhê-lo, provê-lo e satisfazê-lo como aquela que ele acabou de deixar, percebe o outro.
                  Momento fugaz, instante de verdade insuportável, da experiência de que ambos, mãe e filho, mesmo tendo ardentemente desejado a vida, são capazes da mais extrema destruição. Momento cuja representação é quase impossível, para um tanto como para outro, tal a violência e a ameaça que ele encerra.
                  Mas é exatamente em meio a essa vivência que mãe e bebê tornam-se realidade um para o outro. Realidade que, ao surgir, vem necessariamente marcada pelo selo da decepção, da ameaça e da violência, reveladoras da dependência inevitável, do bebê e do adulto, da existência de um outro. Realidade que se origina, portanto, sob o signo do amor e do ódio, da ambivalência e da dor.
                  É desta forma que se forja para o bebê a experiência do sofrimento, e que se reatualiza para a mãe essa mesma experiência. Se lembrarmos do imperativo da concepção dolorosa como a punição divina para Eva, conhecemos a clássica tradução: "Multiplicarei o teu sofrer e tua concepção: com dor darás à luz, filhos" (Gênesis, 3,16). Porém, na versão original dessa passagem, Deus declara: "be etzev teldi banim". Por certo, a palavra etzev em hebraico designa a dor, mas ela também significa tristeza, aflição, fadiga e luto.
                  Principalmente nesse momento da vida, não existe uma vivência materna que não seja compartilhada pelo bebê. Essa experiência inaugural de encontro fica inevitavelmente marcada, pelo prazer e pelo desejo de vida, sem dúvida, mas também pela decepção, pela perda, pela depressão, componentes indissociáveis de todas as sensações presentes e futuras desses dois seres.
                  Para além das sensações corporais turbulentas, violentas, inéditas que caracterizam a passagem do interior do corpo materno para fora dele, o recém nascido é confrontado à dependência de um outro ser para que sua existência possa ser preservada. O que denominamos desamparo7 nessa experiência do bebê não é apenas a vivência em si da dependência de um outro humano, fonte essencial da angústia8. O que freqüentemente é negligenciado, é que o desamparo representa também a "descoberta" pelo bebê que este outro pode também desejar sua destruição e sua morte, sendo, além disso, também capaz de realizá-la.

Paradoxos e destinos do sofrimento

                  As características desse encontro inaugural reatualizam-se a cada instante da existência, quando o sujeito é confrontado à necessidade ou ao desejo de entrar em contato com seu semelhante. Nessa situação, ele se depara com o que Piera Aulagnier denominou paradoxo fundamental: Todo objeto fonte de prazer e de vida pode também tornar-se para o Eu9 um objeto fonte de sofrimento e de destruição, e quanto mais um objeto é necessário ao prazer, mais intenso é seu poder potencial de sofrimento10.
                  Segundo o princípio revelado por S. Freud11 e desenvolvido por P. Aulagnier em suas investigações sobre os avatares da vida de representação12, em princípio, o Eu deseja que toda atividade resulte apenas em experiências e representações fonte de prazer. Porém, esse Eu deve curvar-se à realidade que lhe impõe, como imperativo de sobrevivência, a necessidade de preservação de seus investimentos.
                  Para permanecer vivo, o Eu é condenado a preservar uma relação de investimento com seu próprio corpo, com o Eu de outros - cujo desejo se revela sempre autônomo e às vezes antinômico ao seu próprio -, e com esta realidade que nunca será totalmente conforme à representação que o Eu desejaria ter dela. Além disso, esse corpo, esse outro por ele investido e essa realidade serão periódica e inevitavelmente fonte de sofrimento incitando o que incita um movimento de desinvestimento, um desejo de fuga13.
                  Segundo P. Aulagnier, na tentativa de opor-se a este movimento de desinvestimento que ameaça um suporte de amor e de vida, o Eu recorre, de forma análoga ao mecanismo de para-excitações14, ao para-desinvestimento: "cada vez que uma experiência de sofrimento coloca em perigo seus investimentos privilegiados o Eu pensará sua própria experiência (eprouvé) de forma a operar uma ligação entre um sofrimento, cuja presença e os efeitos ele não pode negar, e uma causa que possa, quanto a ela, permanecer suporte de investimento"15. Percebemos aqui os efeitos da batalha titânica entre as pulsões de vida e de morte.
                  Sabemos que esse movimento contínuo de investimento e desivenstimento do qual o Eu é tanto objeto como sujeito caracteriza a emergência no indivíduo das experiências de prazer e de desprazer. Mas esse movimento oferece-nos também uma perspectiva privilegiada para a compreensão da dimensão econômica da experiência dolorosa.
                  Para além da conhecida visão de que a dor corresponde a uma experiência de desprazer, da clássica versão freudiana que assimila o fenômeno dolorosos à dinâmica do trauma, marcada por uma efração e pela emergência de quantidades de excitação não ligadas16, podemos tentar aprofundar nossa análise no sentido de compreender quais os movimentos pulsionais implicados nessa experiência, e, principalmente, quais os seus destinos.
                  Mais precisamente, poderíamos investigar as relações da experiência dolorosa com esses momentos de passagem de uma situação de investimento para a de satisfação do impulso de desinvestimento. A dor ou o sofrimento podem então ser compreendidos como sinalizadores desse momento em que o aparelho psíquico se engaja ou persiste nesse movimento de desinvestimento, e das conseqüências da representação desse movimento no aparelho psíquico.
                  Desta forma, o fenômeno da dor guarda uma íntima relação com o momento decisivo onde o Eu está prestes a operar, ou operou o desinvestimento do corpo ou parte dele, de um outro sujeito, ou da realidade dos quais ele depende para existir. Mas, seria essa hipótese compatível com a posição freudiana?

Dor por excesso ou dor por falta?

                  Mesmo tendo se preocupado com a especificidade da relação entre a experiência da dor e do desprazer desde 189517, não é por acaso que uma das reflexões mais detalhadas de Freud sobre a dor seja desenvolvida no anexo C de Inibição, sintoma e angústia. Ali, Freud tenta compreender quando o fenômeno da perda ou da separação de objeto resulta em angústia, luto, ou dor, prevenindo o leitor de suas poucas esperanças de conseguir seu intento18. Operando a partir do registro traumático da experiência da perda, Freud caracteriza a dor como sendo "a verdadeira reação à perda de objeto" enquanto a angústia é caracterizada como uma reação à ameaça de que esta perda se produza, e às suas conseqüências19. Ele considera também a existência de um paradigma biológico na constituição da angústia representado pela experiência do nascimento, onde os órgãos respiratórios e o coração são particularmente solicitados, órgãos cujas enervações terão um papel importante na experiência sensorial da angústia20.
                  Ao afirmar que "não pode ser desprovido de sentido que a linguagem tenha criado o conceito de dor interna, psíquica, assimilando completamente as sensações de perda de objeto à dor corporal" 21, Freud ressalta que, para ele, o paradigma da experiência dolorosa é a dor corporal, sendo que a dor psíquica corresponderia a uma apropriação metafórica dessa experiência.
                  Penso ser importante considerar, no entanto, que essa "apropriação metafórica" só é possível a partir de um substrato de experiência passível de investimento e representável. Isso nos leva a considerar que uma vez acessíveis à experiência do sujeito, dor psíquica e dor corporal são indissociáveis, como bem indicam, entre outras evidências, as dificuldades encontradas pela maior parte dos pesquisadores que tentam construir escalas quantitativas para avaliação da intensidade da dor.
                  O papel da vivência corporal da dor como paradigma da dor psíquica é ainda ressaltada por Freud ao esboçar a dimensão econômica dessas experiências. A função econômica do investimento narcísico resultante de uma lesão corporal ou de uma experiência de perda sempre foi defendida por ele desde Introdução ao Narcisismo22. É também em termos do equilíbrio entre investimento narcísico e objetal que ele tenta caracterizar em 1926 a experiência da dor. A dor corporal seria assim um investimento narcísico elevado na localização corporal dolorosa, "um investimento que aumenta ininterruptamente agindo sobre o ego esvaziando-o"23. A distinção e a passagem de uma dor corporal a uma dor psíquica ocorreria em função da possibilidade de investimento predominante de uma parte do corpo ou de uma representação de objeto (que pode inclusive ser uma parte do próprio corpo do sujeito): "O intenso investimento do desejo de objeto (perdido) cuja ausência experimentamos, investimento constantemente crescente por seu caráter insaciável, cria as mesmas condições econômicas que o investimento doloroso no local ferido do corpo e torna possível abstrair o condicionamento periférico da dor corporal! A passagem da dor do corpo para a dor psíquica corresponde à mudança de investimento narcísico em investimento de objeto. A representação de objeto altamente investida pela necessidade tem a função do lugar do corpo investido pelo aumento de estímulos"24.
                  Dor, angústia e luto surgem assim nesse momento da elaboração freudiana como diferentes destinos da experiência de níveis elevados de investimento - no corpo, na expectativa de perda de objeto, na representação do objeto perdido - que diante da impossibilidade de encontrar outras vias de descarga produzem a sensação do desprazer.

A dor nos limites do pulsional

                  Inibição, sintoma e angústia é o resultado de uma ambição freudiana. Freud efetua nesse texto uma mudança significativa ao recusar sua concepção anterior - que descreve a angústia como resultado de uma transformação automática da energia de investimento da moção pulsional recalcada -, passando a considerar o ego como sede da angústia, o responsável pelo investimento ou desinvestimento de uma percepção ou representação ameaçadora ou perigosa. Justificando essa mudança de posição, Freud argumenta que sua primeira teoria apresentava uma "descrição fenomenológica" da angústia, enquanto que sua nova concepção era oriunda de uma "apresentação metapsicológica"25. É "a angústia que produz o recalcamento, e não o recalcamento que produz a angústia"26, passa a afirmar Freud, defendendo a função da angústia como um sinal que alerta as instâncias psíquicas, ego e super-ego, da iminência de um perigo, exterior ou interior, que pode representar uma ameaça ao indivíduo.
                  É importante porém constatar que essa nova leitura metapsicológica da angústia, e consequentemente da dor, fica predominantemente marcada por concepções que pouco consideram as conseqüências clínicas e teóricas dos desenvolvimentos introduzidos por Freud, principalmente desde 1920, em torno da questão da agressividade e seus destinos e do par pulsional Eros e Tanatos. A pulsão de destruição e a questão da intricação ou fusão entre pulsão de destruição e libido são apenas rapidamente consideradas no capítulo VII no contexto da discussão sobre as dinâmicas da fobia, da neurose obsessiva e suas relações com a angústia de castração, sem outros desenvolvimentos.
                  Mas a consideração da segunda teoria pulsional tem conseqüências bem mais amplas sobre a teoria da angústia e em particular sobre a concepção metapsicológica do fenômeno da dor.
                  Em Para além do princípio do prazer, Freud reformula a dimensão econômica da metapsicologia. Inicialmente associados ao acúmulo ou à diminuição das quantidades de excitação no aparelho psíquico, desprazer e prazer revelam-se como experiências bem mais complexas27. O jogo infantil do carretel, que simula o desaparecimento da mãe, os sonhos traumáticos e a compulsão à repetição contradizem o princípio de que o objetivo da vida psíquica seria a obtenção de prazer, e o princípio de constância que manifestar-se-ia através de uma tendência do aparelho psíquico a manter a quantidade de excitações no nível mais baixo possível, ou pelo menos, em um nível constante. O princípio de prazer deixa de ser o único mestre regulador do funcionamento psíquico para curvar-se ao princípio de realidade, sob a pressão das pulsões de auto-conservação, o que supõe, com vistas à sobrevivência, a necessidade de que o indivíduo possa tolerar uma certa dose de desprazer.
                  No âmbito pulsional, a partir de tais processos, Freud deriva do par pulsões de auto-conservação - pulsões sexuais uma nova dimensão. Ele reconhece no âmbito do primeiro grupo de pulsões, do ego, uma tendência conservadora, regressiva e desintegradora, que buscaria a restauração de um estado anterior, não dotado de vida, caracterizando a pulsão de Morte. As pulsões sexuais também reproduziriam estados primitivos do ser vivo, mas através de sua tendência à fusão (primitivamente celular), à ligação e à integração tenderiam à manutenção e à reprodução da vida, caracterizando a pulsão de Vida28.
                  O quadro torna-se mais complexo quando percebemos que nas manifestações humanas - como no sadismo, na paixão, na anorexia, na doença somática, e nas depressões, entre muitas outras - os componentes amorosos, agressivos, de preservação e de destruição do sujeito encontram-se imbricados, sem que possamos distinguí-los claramente. Mais do que tudo, essas concepções colocam em cheque a primazia do princípio do prazer, revelando a existência de processos que ocorrem independentemente deste princípio. Freud sustenta inclusive que são «as pulsões de vida que surgem internamente como perturbadoras da constância do aparelho psíquico, produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que as pulsões de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. Temos assim a impressão que o princípio do prazer está a serviço das pulsões de morte»29.

A dor entre as pulsões de vida e de morte

                  Uma verdadeira revolução é operada em 1924 por Freud. Lançando-se na investigação sobre o masoquismo30, ele se vê mais uma vez obrigado não apenas a questionar a função do princípio de prazer na vida psíquica, mas principalmente reconhecer a necessidade de mudança de um dos pilares da dimensão econômica da psicanálise: "se o princípio de prazer domina a vida anímica de forma que evitamento do desprazer e obtenção de prazer sejam objetivos imediatos, então o masoquismo é incompreensível. Se dor e desprazer podem ser, não advertências, mas alvos em si, o princípio de prazer está paralisado, e o guardião da vida psíquica [...] narcotizado"31.
                  É importante que consideremos o alcance desse desafio. Questionar a função do princípio de prazer no funcionamento psíquico implica necessariamente em correr o risco de repensar a relação do ser humano à dor e ao sofrimento, e, mais do que isso, poder também reconhecer nesse sofrimento uma função na preservação da vida. Por extensão, somos convidados por Freud a pensar a possibilidade do princípio do prazer constituir-se como "guardião da vida, e não apenas da vida psíquica", o que implica considerarmos esse princípio em sua relação com as pulsões de vida e de morte e com as dinâmicas libidinais e de destruição.
                  Freud incorpora o conceito de Barbara Low de princípio de Nirvana, descrevendo-o como a tendência a reduzir a excitação no aparelho psíquico a zero, ou aos níveis mais baixos possíveis. Para ele, o princípio do Nirvana, a serviço da pulsão de morte, é um funcionamento primário que no ser humano sofre uma modificação que o transforma em princípio do prazer. Essa modificação é provocada pela pulsão de vida "que obtém, ao lado da pulsão de morte, o direito de participar à regulação dos processos vitais". Percebemos assim que a dinâmica entre esses grupos pulsionais - Vida e Morte, amor e ódio - é marcada não apenas pela oposição, mas sobretudo pela intricação pulsional, pela possibilidade de investimentos recíprocos que determinam uma mudança nas próprias características dessas pulsões e em seus destinos.
                  Nesse contexto, é interessante considerar que talvez Freud não ignorasse que em sânscrito, e no pensamento oriental budista, o Nirvana é descrito como um estado de extinção da dor que corresponde à libertação do ciclo das reincarnações. A partir da escolha do conceito de Nirvana e de sua associação com a pulsão de morte, poderíamos inferir uma intuição freudiana de que, de certa forma, a analgesia poderia ser um dos sinais da ação da pulsão de morte? Ou ainda que o investimento da sensação dolorosa pela pulsão de vida, e o contato com essa experiência de sofrimento seriam uma contingência necessária do processo vital?
                  Dito de outra forma, devemos considerar que com vistas à preservação da vida as pulsões de vida e de morte encontram-se mescladas. As tendências libidinais ficam assim marcadas pelas forças desagregadoras e destrutivas da pulsão de morte, e a destrutividade impregnada pelas forças libidinais de ligação e integração características da pulsão de vida. Segundo Freud, o masoquismo erógeno primário seria um vestígio do momento em que se realiza essa liga, essencial para vida, entre Eros e Tanatos32. Segundo Benno Rosenberg , esse acontecimento, que depende da qualidade da presença do objeto materno, determina também a transformação do princípio de Nirvana em princípio de prazer, e inaugura a primeira estrutura do ego arcaico, organizado em torno do núcleo masoquista erógeno primário33.
                  Esse núcleo é constituído pela parte da pulsão de morte que, por não ter sido projetada para o exterior, permanece no organismo sendo investida pela pulsão sexual. É esse núcleo masoquista primário que torna suportável a vivência do desamparo, as primeiras experiências de desprazer e de sofrimento. A possibilidade de libidinalização dessas vivências é condição essencial para a constituição da organização psíquica primitiva, da co-excitação sexual e da experiência de continuidade dentro da fragmentação do próprio indivíduo e entre o indivíduo e seus semelhantes. Nessas condições, o masoquismo, investimento erógeno da experiência dolorosa, constitui-se como promotor e guardião da vida.
                  O masoquismo erógeno primário passa assim a ser considerado por Freud, em função da ação de Eros, como o meio por excelência, talvez o único, para impedir a satisfação da pulsão de morte, para impedir a própria destruição do sujeito. Partindo desta consideração, B. Rosenberg aponta: «se o masoquismo pode impedir a satisfação de uma pulsão (de morte), é suficiente que ele se aplique a uma outra pulsão, à pulsão de vida, à libido, ou à pulsão de auto-conservação para que ele paradoxalmente ele se transforme de masoquismo guardião da vida em masoquismo mortífero»34. É o que observamos em algumas anorexias mentais graves ou nas mutilações graves e até mortais de alguns psicóticos. O que é profundamente ameaçador no masoquismo é que como sinal de advertência (desprazer) ele pode provocar a renúncia (impedir) à satisfação de necessidades vitais, colocando em perigo a vida.
                  O caráter mortífero do masoquismo é conseqüência das perturbações da intricação pulsional. A inexistência de condições para o investimento primário da destrutividade pela libido, em função da perturbação das relações primitivas mãe bebê, por exemplo, pode ter impossibilitado a constituição originária de um núcleo masoquista primário. Em outros casos, uma experiência traumática pode provocar o desinvestimento de uma ligação previamente estabelecida entre os dois grupos pulsionais.
                  Segundo B. Rosenberg, o efeito da desintricação pulsional é o desinvestimento do polo libidinal e objetal da pulsão de vida em benefício do polo auto-conservador. A perda do desinteresse pelos objetos e pelo mundo objetal inviabiliza a vida psíquica, e esse desinvestimento representa uma verdadeira ameaça vital. Não que se esgotem os esforços desesperados no sentido da auto-conservação, mas pelo fato desses esforços encontrarem-se completamente desvinculados de qualquer dimensão erógena e pelo abandono do mundo objetal. A economia do sujeito passa a funcionar "em circuito fechado", voltado primordialmente para a busca e o acúmulo de excitações, em detrimento de um prazer de descarga enquanto satisfação objetal. Esse tipo de funcionamento é ilustrado pela feliz expressão de Michel de M'Uzan, que descreve os indivíduos que apresentam tais dinâmicas como escravos da quantidade35. Descritos por Gérard Szwec e por Claude Smadja, os procedimentos auto-calmantes pela busca repetitiva da excitação - atividades motoras ou perceptivas utilizadas pelo ego para contra-investir uma realidade traumática - também resultam de falhas da intricação pulsional que podem ser assimiladas às manifestações mortíferas do masoquismo36, 37.
                  Assim, segundo B. Rosenberg, "o paradoxo do masoquismo mortífero reside no fato que a preocupação excessiva com a auto conservação ameaça a vida psíquica. [Isso porque] a vida só pode conservar-se a longo prazo pela expansão da vida, expansão esta que faz parte da natureza da pulsão de vida, mas que ocorre no polo libidinal-objetal desta pulsão" 38.
                  A. Green sustenta uma leitura semelhante. Ressaltando a importância função objetalizante e de ligação das pulsões de vida, em oposição à função desobjetalizante e de desligamento da pulsão de morte, ele descreve as conseqüências da atividade de formas de destrutividade não ligadas. Essas podem manifestar-se através das formas graves de depressão que levam ao suicídio, na melancolia, no autismo infantil, na anorexia mental, nas psicoses que revelam a desintegração do ego, nas neuroses graves, nas estruturas narcísicas e nos casos limites. Essas manifestações caracterizam-se por um luto insuperável, por afetos relacionados à desintricação pulsional como angústias catastróficas ou impensáveis, sentimentos de futilidade, desvitalização ou morte psíquica, sensações abismais e de buracos sem fim39.

Dor sinal e trabalho da dor

                  É chegado o momento de uma pequena reparação. Se, em nossa tentativa de desvendar os mistérios do sofrimento humano, enveredamos pelas sendas obscuras e incertas do mundo pulsional não é absolutamente por negligenciar a complexidade dos mecanismos neurofisiológicos da dor. Estes são cada vez mais conhecidos e os recursos terapêuticos - medicamentosos, fisioterapêuticos, cirúrgicos e muitos outros - utilizados no tratamento das manifestações dolorosas cada vez mais desenvolvidos. Apesar disso, cada vez mais evidenciam-se as dificuldades das equipes terapêuticas na compreensão da etiologia, do desenvolvimento e do tratamento da dor crônica. A complexidade de tais situações revela-se principalmente nas dores que se manifestam de forma persistente mesmo diante da ausência de uma estimulação dos receptores específicos da dor ou de lesões, ou ainda no fenômeno do membro-fantasma, uma parte amputada do corpo que continua a produzir sensações dolorosas apesar da inexistência de qualquer enervação desta parte perdida.
                  Nosso convite à aventura pela metapsicologia e pelas fases mais precoces do desenvolvimento do indivíduo humano tem por objetivo, justamente, aprofundar a compreensão da dimensão subjetiva e emocional que participa da experiência da dor, não apenas crônica, mas também aguda e lesional, como reconhecem inclusive médicos e pesquisadores desse campo. Em sua definição oficial, a Associação Internacional para o Estudo da Dor descreve a dor como sendo "uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão tissular existente ou potencial, ou descrita em termos que significam tal lesão". A dimensão emocional aqui deveria ser considerada em sua dimensão mais ampla, incluindo inclusive, e sobretudo, as dinâmicas inconscientes que se encontram implicadas em tais emoções. Infelizmente, na clínica e na pesquisa observamos uma atenção privilegiada ao polo sensorial em detrimento do emocional.
                  A experiência e a observação clínicas nos mostram os riscos e as conseqüências nefastas de alguns tratamentos da dor que negligenciam as dimensões psicoafetivas, biográficas e relacionais da dor. Essa negligência leva freqüentemente a uma verdadeira escalada de analgésicos, antinflamatórios, derivados de morfina, procedimentos cirúrgicos e de estimulação nervosa que muitas vezes tem como resultado final uma mutilação do corpo ou uma existência alienada, quando não uma evolução clínica grave, "incompreensível" diante da inexistência de qualquer "evidência" anterior que pudesse prenunciá-la.
                  É quando me lembro de uma jovem mulher, para nós, Isabelle. Com cerca de 36 anos, em plena atividade, ela recebe o diagnóstico de câncer de mama. Pouco tempo depois da mastectomia ela começou a sentir dores nas costelas. Uma investigação médica minuciosa nada descobre que pudesse justificar a dor da qual se queixava. Para aliviá-la, submeteram-na a uma radioterapia com vistas a eliminar um eventual foco rebelde. As dores desapareceram, mas cerca de um ano depois foi diagnosticado um câncer de pulmão, sem relação com o câncer de mama anterior. Durante cerca de 3 anos o tumor pulmonar permaneceu controlado e estacionário. Durante esse tempo, manifestaram-se vários períodos de intensas dores indeterminadas sem relação com o tumor, tratadas com analgésicos.
                  Por períodos intermitentes, Isabelle era acompanhada em psicoterapia de abordagem corporal. Em um desses períodos, com muita raiva, ela lembrou-se das fortes dores nas costas que sua mãe havia tido durante o período de sua adolescência. Dores de tal intensidade que impediam que parentes ou amigos freqüentassem sua casa, marcando essa época com lembranças de uma grande solidão. Diante do caráter insuportável de sua própria dor, e da ineficiência dos tratamentos que recebera até então, Isabelle decide consultar um grupo clínico especializado no tratamento da dor, que recomenda a resecção cirúrgica do nervo correspondente à região dolorosa. Decidindo realizar a cirurgia, ela pediu para sua terapeuta ir vê-la no hospital. Poucos dias depois da operação, ela lhe relatava muito surpresa o desaparecimento completo de suas dores, segundo ela, "como se tivessem sido arrancadas com a mão". Ao mesmo tempo, porém, ela contava sua dificuldade para respirar, acrescentado "sempre morri de medo de não respirar". De maneira repentina, seu estado agravou-se de forma rápida e inesperada, com perturbações de vários órgãos refratárias a todas as tentativas médicas de diagnóstico e de tratamento. Cerca de dez dias depois da cirurgia, Isabelle falecia, segundo os médicos de maneira "incompreensível", por falência múltipla de órgãos40.
                  Nesse contexto, não pretendo estender-me em uma análise aprofundada das implicações das duas manifestações cancerosas e de suas representações na dinâmica de Isabelle, ou mesmo em uma investigação mais minuciosa do contexto fantasmático individual e familiar no qual surgiam suas dores insuportáveis. Gostaria apenas de refletir sobre a evolução "surpreendente" e dramática de seu estado a partir do efeito, não menos surpreendente para ela, da cirurgia que levou ao alívio instantâneo de suas dores.
                  Podemos considerar que com o desaparecimento de sua dor rompeu-se talvez um fio significativo que a ligava, através de sua história identificatória, às dores insuportáveis e impressionantes de sua mãe, que, entre outras experiências, marcaram a adolescência de Isabelle com imagens de uma casa deserta e silenciosa. Mais do que isso, deveríamos também compreender que apesar do sofrimento que elas implicavam, tais dores, tão intensas, tão prolongadas, tão rebeldes a diagnósticos e tratamentos pudessem ter para ela a função de mantê-la ligada à vida.
                  Diante da impossibilidade de uso de outros recursos para elaborar e manifestar as marcas de sua existência, a dor, apesar de insuportável, surgia talvez como um recurso extremo de alerta, para ela mesma e para aqueles que a cercavam, da violência de uma batalha interior que necessitava de reforços para que a vitória da vida fosse possível. A impossibilidade de considerar essa dimensão do sofrimento de Isabelle, de deixar soando, mesmo que em surdina, os clarins daquela batalha para que se soubesse que ela ainda ocorria, com chances de ser vencida, a opção de atacar apenas a dor fisicamente manifesta cortando pela raiz as redes nervosas que a produziam acabaram por conduzir a dor, e também Isabelle ao silêncio, abandonando-a, solitária, ao seu desamparo e às suas forças auto-destrutivas.

                  Temo que esse longo caminho que percorremos tenha suscitado mais questões do que trazido respostas àquelas que já existiam. Mesmo que tenhamos compreendido o caráter indissociável das dimensões psíquicas e corporais da dor, percebemos a dificuldade e as resistências que esta compreensão pode suscitar nos meios médicos e científicos. No âmbito da psicanálise, descobrimos que a clareza da distinção entre dor, angústia e luto esboçada por Freud em 1926 é apenas aparente, e que muito ainda temos que compreender sobre a perda e o desamparo, referências para essas três manifestações.
                  Por outro lado, penso que é fundamental que consideremos a dor como um fenômeno relacional, onde um outro, mesmo imaginário, está sempre implicado, e que necessariamente mobiliza nos próximos ao sujeito seus próprios núcleos de sofrimento; que a dor, mais do que um sintoma desprazeiroso a ser eliminado, é uma demanda a ser compreendida, um sinal de alerta da pulsão de vida sobre os riscos de desinvestimento e de destruição em curso pela ação da pulsão de morte; e ainda, que o silenciamento intempestivo e não elaborado da dor pode promover o desligamento dessas duas pulsões, favorecendo o curso independente e naturalmente silencioso da pulsão de morte, impedindo a elaboração do desamparo e dos núcleos mais primitivos da existência do sujeito, a atividade de representação e a vinculação objetal.
                  Todas essas considerações repercutem necessariamente no contexto terapêutico. Na relação com o terapeuta - médico, psicanalista, psicoterapeuta ou qualquer outro - reatualizam-se as dinâmicas implicadas na experiência dolorosa. O outro que cuida é aquele para quem está dirigida a demanda implícita do sofrimento do paciente, mas ao terapeuta é também atribuída inconscientemente pelo paciente uma responsabilidade pela dor que este sente, alimentando os núcleos de agressividade e de perseguição dessa relação. Ao mesmo tempo, a dor do paciente mobiliza no terapeuta seus próprios núcleos primitivos de desamparo e de sofrimento, promovendo sua identificação com aquela dor e com seus efeitos.
                  Em função disso, é necessário que aprofundemos nossa compreensão dos efeitos transferenciais e contra-transferenciais da dor na relação terapêutica. A manifestação dolorosa mobiliza vivências sensoriais que muitas vezes encontram-se aquém do discurso e das possibilidades de representação. Ao mesmo tempo, os componentes destrutivos, implicados nessa manifestação, podem também constituir um ataque às capacidades de representação e de elaboração do terapeuta, perturbando sua escuta e o exercício de sua função.
                  Na relação psicanalítica, em particular, isso implica uma abertura e uma atenção específica para dimensões pouco consideradas no enquadre clássico, como a experiência sensorial, a gestualidade, o ritmo do paciente bem como para as próprias experiências corporais do analista. Na clínica médica formula-se uma exigência de um mínimo de escuta e de elaboração para o desamparo e a demanda psíquicas implícitas na queixa dolorosa.
                  Finalmente, deveríamos refletir, sobretudo, sobre os modos de relação contemporâneos à dor e ao prazer. Sabemos o que representa, para aquele que as vive, o alívio das dores extremas. Porém, ao reverenciar fascinados a corrida desenfreada e sem critério por analgésicos cada vez mais potentes, ao erguer em ideal a abolição a qualquer preço do sofrimento, ao promover a idéia de um prazer sempre possível e ilimitado corremos o risco de nos tornamos meros observadores, impotentes e alienados, de catástrofes que não podem mais ser evitadas por terem sido caladas as vozes que poderiam anunciá-las.


1. Publicado em Berlinck M. (org.), Dor, São Paulo, Escuta, 1999, pp 35-60.
Versões condensadas deste trabalho foram apresentadas no IV Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, realizado de 23-25/IV/1999, em São Paulo e na II Jornada de Psicanálise da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro - SPCRJ sobre "Os casos limites" realizada de 24 a 25/IX/199, no Rio de Janeiro.
2. Psicanalista. Doutor pela Universidade de Paris VII - Denis Diderot. Professor do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenador do Centro de Estudos da Mama do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUC-SP. Co-organizador e autor de Psicossoma - Psicossomática psicanalítica (S. Paulo, Casa do Psicólogo, 1997) e de Psicossoma II - Psicossomática psicanalítica (S. Paulo, Casa do Psicólogo, 1998).
3. S. Zweig, Destruction d'un coeur (1927), Paris, Livre de Poche, 1994, p. 10/11.
4. S. Zweig, Ibid., p. 12/13.
5. A. Buarque de Holanda Ferreira, Novo dicionário da língua portuguesa, Nova Fronteira, 1975, Rio de Janeiro.
6. S. Freud, Projeto de uma psicologia científica (1895), Standard Edition Brasileira da Obra Psicológica Completa de S. Freud, vol. I, p. 381.
S. Freud, Inhibition, symptôme et angoisse (1926), Oeuvres Complètes - Psychanalyse, vol. XVII, P.U.F., 1992, Paris.
7. "Qual é o núcleo, a significação da situação de perigo? Manifestamente a avaliação de nossa força comparada à grandeza desse perigo, o reconhecimento de nosso desamparo faca ao mesmo, desamparo material, no caso de perigo real, desamparo psíquico no caso de perigo da pulsão".
S. Freud (1926), op. cit. p. 280
8. "A angústia se revela como produto do desamparo psíquico do bebê, que é [...] uma variante de seu desamparo biológico".
S. Freud (1926), op. cit. p. 253.
9. Instância depositária da história libidinal do sujeito cuja finalidade é "forjar uma imagem da realidade do mundo [...] e da existência do qual ele é informado que seja coerente com sua própria estrutura" (p. 28, 29). P. Aulagnier busca através desse conceito específico chamar a atenção para uma dimensão e para modalidades de funcionamento psíquico para os quais os termos Ego e Sujeito lhe parecem insuficientes.
Cf. P. Aulagnier (1975), A violência da interpretação, Imago, 1979, Rio de Janeiro.
10. P. Aulagnier (1982), Condamné à investir. In: Un interprète en quête de sens, Ramsay, 1986, Paris, p.241.
11. S. Freud Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911), Standard Edition Brasileira da Obra Psicológica Completa de S. Freud, vol. XII, p. 277.
12. Para P. Aulagnier, a atividade de representação é "o equivalente psíquico do trabalho de metabolização própria à atividade orgânica"
Cf. P. Aulagnier (1975), op. cit., p. 27.
13. P. Aulagnier (1982), op. cit., p.240.
14. Barreira de proteção do aparelho psíquico contra o excesso de excitações que perturbaria o seu funcionamento.
Cf. S. Freud Para além do princípio do prazer (1920), Standard Edition Brasileira da Obra Psicológica Completa de S. Freud, vol. XVII, p. 39.
15. P. Aulagnier (1982), op. cit., p.240.
16. "Da dor conhecemos muito poucas coisas. A única certeza é dada pelo fato que a dor [...] aparece quando um estímulo atacando a periferia perfura os dispositivos do para-ecxitações e age desde então como um estímulo pulsional contínuo contra o qual as ações musculares, geralmente eficientes para subtrair ao estímulo o local estimulado, permanecem impotentes" (p. 285)
S. Freud (1926), op. cit.
17. A questão da dor é um elemento central das reflexões de Freud no Projeto onde ele tenta examinar os destinos das quantidades de energia Q no systema psi, sua relação com as tendências do sistema ao rebaixamento das quantidades de excitação, e a relação entre dor e desprazer.
S. Freud Projeto de uma psicologia científica (1895), op. cit.
18. S. Freud (1926), op. cit., p. 283.
19. S. Freud (1926), ibid., sublinhado por mim.
20. S. Freud (1926), ibid., p. 248/9.
21. S. Freud (1926), ibid.
22. "Todos sabemos e consideramos natural que o indivíduo tomado por uma dor ou por um mal-estar orgânico deixa de interessar-se pelo mundo exterior [...]. Uma observação mais detalhada nos mostra que também retira de seus objetos eróticos seu interesse libidinal, cessando assim de amar enquanto sofre. [...] o indivíduo retrai para o ego suas cargas de libido para dirigi-las para a cura".
S. Freud, Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Standard Edition Brasileira da Obra Psicológica Completa de S. Freud, vol. XIV, p. 89.
23. S. Freud (1926), op. cit., p. 285.
24. Ibid., p. 286, sublinhado por mim.
25. bid., p. 211.
26. Ibid, p. 226.
27. S. Freud, Au délà du principe du plaisir (1920), Oeuvres Complètes - Psychanalyse, vol. XV, P.U.F., 1996, Paris.
28. "Quando postulamos a tese da libido narcísica e ampliado o conceito de libido às células individuais vimos a pulsão sexual transformar-se em Eros, que busca levar uma à outra e manter a coesão das partes da substância viva, e aquilo que normalmente denominamos pulsões sexuais é a parte deste Eros voltada para o objeto. A especulação coloca que esse Eros é presente desde o início da vida e que como "pulsão de vida" ele entre em oposição com a pulsão de morte que aparece a partir do fato que o inorgânico ganhou vida" (nota p. 335).
29. S. Freud, Para além do princípio do prazer (1920), op. cit. p. 84/5.
30. S. Freud, Le problème économique du masochisme (1924), Oeuvres Complètes - Psychanalyse, vol. XVII, P.U.F., 1992, Paris.
31. S. Freud (1924), op. cit. p. 11,
32. S. Freud, Au délà du principe du plaisir (1920), op. cit., p. 329.
33. B. Rosenberg, Masochisme mortifère e t masochisme gardien de la vie, P.U.F., 1991, Paris.
34. B. Rosenberg, op. cit, p. 72.
35. De M'Uzan, Les esclaves de la quantité, Nouvelle Revue de Psychanalyse, 30 , 1984, 129-138.
36. G. Szwec, Les procédés autocalmants par la recherche de l'excitation, Revue Française de Psychosomatique, 4 , 1993, 27-52.
37. Cl. Smadja, A propos des procédés autocalmants du moi, Revue Française de Psychosomatique, 4 , 1993, 9-26.
38. B. Rosenberg, op. cit, p. 30.
39. A. Green, Pulsion de mort, narcissisme négatif, fonction désobjectalisante. In: Green A. et. al., La Pulsion de mort, P.U.F., 1986, Paris, p. 54/55.
40. Agradeço generosidade de Ana Maria Soares (Naná) que acompanhou «Isabelle» e autorizou a comunicação desse relato, cuja brevidade certamente não esconde as complexidades do caso.


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