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RESUMO PARA «OS ESTADOS GERAIS DA PSICANÁLISE»- Paris julho 2000
Partindo das postulações de Freud sobre o pai como o interditor do desejo incestuoso e agente da castração, Lacan progrediu na investigação sobre o tema e pôde considerar mais amplamente esta questão. Sua teoria evoluiu de uma abordagem inicial na qual não diferenciava a estrutura da linguagem do mito edipiano, até estabelecer, nos anos 70, uma diferença nítida dos dois níveis, o que possibilitou a reavaliação da concepção da função paterna e suas conseqüências, situando diferentemente a dimensão do pai real2. Nos anos 50/60, ao abordar a questão do Nome do Pai, Lacan se direciona, preferentemente, para o universo simbólico, onde o pai é um significante. Nesta época, é o registro simbólico que determina e organiza os outros dois, o imaginário e o real, que compõem o mundo subjetivo. O Nome do Pai é um conceito que aponta para uma função, posto que é nome e não pessoa. Entretanto, entre um pai-pessoa e esta função não existe uma adequação absoluta. Enquanto agente da lei o pai não é a lei, somente a representa desde que submetido a ela. Os efeitos desta função ficaram evidentes através da pesquisa acerca do tratamento das psicoses, permitindo uma abordagem do seu fracasso com referência à legislação e organização subjetiva. Desta forma, partindo do patológico Lacan apreendeu o funcionamento psíquico normal. Mas interessa-nos destacar aqui a ultrapassagem da colocação do mecanismo de forclusão do Nome do Pai como estrutural na psicose, fato que implica numa mudança de estabelecimento da castração como algo afeito à interdição paterna. Temos, assim, um evoluir de uma versão mítica para a apreensão da impossibilidade de encontro com o objeto por uma questão de estrutura, o que resulta numa clara distinção dos registros do imaginário, simbólico e real, permitindo uma aproximação diferente da questão paterna. Se Freud se colocava excessivamente pai em sua clínica, o que segundo suas palavras era uma dificuldade, é apenas pela vertente do pai imaginário ou mesmo do pai simbólico que podemos concordar com esta afirmação. Com o acréscimo da dimensão real do pai instiuído por Lacan, podemos repensar o lugar do analista na clínica assim como investigar sua incidência no acesso ao final de uma análise. O pai real é aquele que aponta para o saber impossível sobre a diferença sexual. A verdade de um homem, a causa de seu desejo, ou mesmo sua única garantia real da função paterna é uma posição père-vers, voltado para uma mulher como nos coloca Lacan em RSI. Mas é na condição de um meio-dizer, ou seja de um não-saber sobre seu gozo de homem em relação a esta mulher que ele se instala como agente da castração. O real então é o que faz limite a um saber a verdade sobre o gozo3.
Levando em consideração que a análise deve chegar a um além do Édipo, como nos propõe Lacan, ultrapassando o limite do rochedo da castração postulado por Freud, nosso ponto está sendo pensar em que dimensão ou mesmo extensão isto pode ser atingido, e se este ir além implica em que do pai nada resta. Nossa proposta é que do pai fica seu aspecto de sustentação não só de uma impossibilidade de saber tudo acerca da diferença sexual, ou seja, o saber é não-todo, assim como o fato de ser aquele que ao indicar esta limitação, aponta para o desejo colocando-o numa mulher. Com esta idéia sustentamos que o pai real aponta para castração, entendendo-a não pela perspectiva mítica do pai edípico interditor, mas em sua vertente de impossibilidade como nos indica Lacan no seminário 17. A análise promove, então, o encontro com a face real do pai, devidamente diferenciada do pai gozador imaginário, sustentáculo do supereu e também do pai simbólico, portador do significante mestre. Esta exposição nos permite, assim, sugerir a idéia do pai real funcionando como um dos operadores para aceder ao final de análise.
A discussão sobre o final de análise considerando a posição do analista, constitui um vasto campo para investigação, visto tratar-se de um aspecto deixado em suspenso por Freud, com um questionamento sobre os limites deste processo. A relação do lugar do analista e a função paterna já está claramente indicada pelo autor como obstáculo ao término de análise posto que tanto homens quanto mulheres ficariam numa reivindicação fálica impossível de ser superada. Lacan avançou neste ponto, sustentando uma teoria do final de análise que vai além do Édipo, ou seja, além do registro fálico, o que faz com que o sujeito possa ultrapassar o pedido impossível de satisfação e saber absoluto que o garanta, para aceder ao desejo de desejar. Entretanto, sabemos que nem todos que iniciam este processo irão finalizá-lo, em muitos casos o que ocorre é uma interrupção. De qualquer forma, esta proposta considera que o sujeito que chega a este final sofre mudança que o transforma num analista, mesmo que não necessariamente atuante como profissional4.
1. Psicanalista da SPID, professora dos cursos de psicologia do IBMR e da UVA, Rio de Janeiro, Brasil..
2. Lacan, J (1969/70) - O Avesso da Psicanálise, Livro 17, Rio de Janeiro, Zahar, 1992.
3. Julien, P - op.cit
4. Soler, C - Variáveis do Fim da Análise, Campinas, SP, Papirus, 1995.
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