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3. AS INSTITUIÇÕES PSICOANALÍCAS
Juan Carlos VOLNOVICH
Os meus agradecimentos vão para René Major e para o Comité Francês de Preparação. Tenho uma dívida dupla convosco. Em primeiro lugar, porque se mostraram muito amáveis ao solicitar a minha participação como Leitor dos trabalhos dedicados às instituições pricoanalíticas. Em segundo lugar, porque através deste convite, evitaram-me o desgosto de assistir na minha querida Buenos Aires ao encontro entre os representantes mais decadentes da API com Jacques Alain Miller. Acima de tudo, por esta última razão: muito obrigado!
A psicoanálise merece um melhor destino do que até agora lhe foi deparado pelas instituições encarregadas de administrar a herança freudiana e a herança lacaniana. Aquí articulei o denominador comum dos trabalhos que tive a oportunidade de ler. A denúncia do mal estar que produzem as organizações encarregadas de concretizar na realidade a instituição da psicoanálise, as dificuldades inerentes à produção de conhecimentos, à transmissão da teoria e à formação de agentes, os obstáculos que impedem o imaginar novas formas do exercer do poder, todos estes temas passam por quase todos os trabalhos apresentados. Deste modo, os discursos enunciados nos vinte e cinco trabalhos que circularão na Internet, desenrolam-se no amplo espectro da denúncia ideológica. Em alguns, e apenas em alguns, transitam propostas organizativas. Todos eles apelam ao potencialmente constituente, transformador e inovador para enfrentar o de mais reaccionário e instituído da nossa disciplina.
Duas perguntas nos desafiam: A psicoanálise pode viver fora das instituições? A psicoanálise pode viver (se por "viver" se entender produzir conhecimentos) dentro das instituições?
Talvez numa primeira aproximação, a resposta passe pelo reconhecer que a psicoanálise necessita das instituições para viver fora delas, ou, talvez, para viver nas brechas, rachaduras, interstícios que as instituições lhe oferecem. Dito de outro modo: o melhor que a psicoanálise tem foi feito contra a psicoanálise, ou seja, contra o estabelecimento psicoanalítico. Porque a psicoanálise é um modo muito particular de saber: fracassa quando triunfa e se institui. Quando fracassa, ou seja, quando elude a instituicionalização, triunfa. E isto acontece porque a psicoanálise é uma disciplina que está sempre em duelo consigo própria. Trata-se de um saber ambíguo, paradóxico, uma vez que se intenciona afirmar à custa da sua própria evanescência. Evita a consagração e o reconhecimento porque sabe que risco implica: a captura adaptativa.
Exprimido desta forma, não se trataria, então, de averiguar o que temos, nós psicoanalistas, que ver com as instituições, mas de descobrir o que é que as instituições têm connosco, já que, pelos vistos, não nos fazem psicoanalistas. Não somos psicoanalistas, estamos isso sim instituíndo a psicoanálise. Instituímos a psicoanálise quando construímos e reconstruímos o saber. Instituímos a psicoanálise quando retomamos o poder que tínhamos delegado a outros. Quando nos perguntamos onde está o poder; quem toma as decisões que nos afectam a todos; em função de que interesses e de resposta a quais imperativos. Quando nos interrogamos sobre qual é a nossa relação com o poder, de que poder fomos despojados, que poder exercemos, como o exercemos, contra quem, então estamos instituíndo a psicoanálise. Também estamos instituíndo a psicoanálise quando reflectimos acerca da nossa posição face a essa lógica anónima e difusa do Dinheiro Geral Equivalente. Quando nos questionamos de que modo jogamos com o interesse, a renda, o lucro e a ganância, e quando esclarecemos a nossa posição face às diferenças das classes sociais e à ordem patriarcal, estamos instituíndo a psicoanálise.
Nunca fomos mais ignorantes do modo como as instituições nos atravessam e nos determinam do que actualmente. A nossa implicação e a nossa sobreimplicação com a psicoanálise mesmo aquela caracterizada pela apatia e o desencanto a análise da dita implicação nunca chegou a estes extremos e nunca antes permaneceu mais oculta e reprimida. Análise das nossas revogações e das nossas aderências às teorias, aos mestres e às organizações. Análise da nossa "neutralidade" e do nosso "compromisso"; da nossa participação e das nossas indiferências; dos nossos investimentos e dos nossos desafectos. Talvez nunca tenha sido mais evidente de que actualmente de que modo as instituições - contextos que nos incluem e textos que, ao serem atravessados, nos constituem - estão desvirtuando esse mosaico conceptual ao qual chamamos a psicoanálise.
Talvez seja demasiado pedir que as organizações psicoanalíticas - pelo mero facto de serem psicoanalíticas - construam uma ética, uma política e uma forma de administração diferente da que sustêm a sociedade em conjunto.
De maneira inevitável, a psicoanálise como instituição imaginária da sociedade, as suas organizações e os seus agentes, funcionam grudados à lógica do Capitalismo Planetário Integrado. Por muito que nos pese, ela colabora na perpetuação de uma ordem de submissão, de injustiça e de exclusão. Todavia, cada associação, cada escola, cada grupo, cada sujeito, sustem dentro dele a força antagonística que anuncia e augura a emergência do desejo produtivo. Esta força institutiva, predominantemente transformadora que os Estados Gerais proclamam, não é original hoje em dia nem é da nossa criação. Reconhece os seus antecedentes no escândalo freudiano do princípio do século, no aparecimento de Lacan, no freudomarxismo, na Confrontação.
Para os psicoanalistas argentinos foi a fundação da Associação Psicoanalítica em 1943 com Marie Langer, uma mulher, à cabeça. Foi Pichon-Rivière ao levar a psicoanálise ao manicómio em 1949. Foi a abertura do Serviço de Psicopatologia do Policlínico de Lanús um serviço psicoanalítico num hospital geral em 1956. Foi a Plataforma em 1971, foi a psicoanálise no exílio e foram as equipes de assistência às Mães e Avós da Plaza de Mayo.
Como vêm, a história da psicoanálise institucional argentina abunda mais em derrotas que em victórias. Todavia, a força desse trânsito sobrevive na nossa lastimada consciência de vencidos e não figura na história que os vencedores da psicoanálise instituída escrevem diáriamente para converter a doutrina em dogma e a instituição em igreja.
Os psicoanalistas constituentes temos sobrevivido às derrotas, porém a nossa consciência de vencidos é a dos que lutam aquí, e agora, e em qualquer lugar, contra o poder e o saber totalitário, pelo respeito das diferenças, pelo não renunciar à unidade, à força que dá oconjunto.
Na realidade não existe psicoanálise constituente. Haverão, eventualmente, experiências efémeras, raios fulgurantes, polisémicos, acontecimentos que atravessam de modo errático, intempestivo, a trama congelada do instituído. Haverão, eventualmente, respiradores que se rebelam de suportar a asfixia que produz a cápsula do instituído.
Por mais que se o proclame não há o tal "fim da história" e não está próximo o desaparecimento da psicoanálise. Portanto, não há victória final. Tão pouco derrotas passadas, porque para muitos dentre nós, vencer é apenas isso: tentar uma e outra vez o que desejamos.
Os Estados Gerais, este evento que hoje nos convoca, é a cunha pela qual nos arrancarão os nossos passos para tentar, para desejar mais uma vez.
Os Estados Gerais. Este tipo de experiências aparece em certos momentos da história. Impôem-se nesses períodos quentes nos quais a crítica ao instituído tem tendência a generalizar-se. Quando as condições existentes nas instituições se tornam insuportáveis. Quando o cárcere não se tolera mais. Quando a indiscriminação e o canibalismo se unem a um certo fundamentalismo para esvaziar a produção e anular a creatividade.
Hoje em dia, os Estados Gerais são a nossa utopia activa: o desejo do possível que se constói sobre o derrumbar do existente.
Talvez os psicoanalistas constituentes não sejamos melhores que os psicoanalistas instituídos que se declaram donos absolutos da psicoanálise. Talvez a nossa originalidade resida no facto de saber a cada passo que estamos recorrendo a um caminho pelo qual não queremos transitar; que apostamos no que é drásticamente novo. Esse "novo" que só nasce do bom encontro e que muda a sociedade e produz mudanças na subjectividade. Quando logramos os efeitos transformadores na ordem instituída, estamos instituíndo. Estamos instituíndo graças a tudo o que sabemos da psicoanálise. Graças a tudo o que sabemos e apesar de tudo o que sabemos. Quero dizer: apesar dos limites com os quais a própria psicoanálise, a burocracia e o dogma nos tencionam neutralizar para perpetuar a ordem instituída.
Ninguém é, eu suspeito, demasiado diferente da sociedade que o genera. O autoritárianismo, a tendência ao sectarismo, a ineficiência, a irresponsabilidade face ao sofrimento dos outros, esses males que caracterizam o individualismo burguês, também se reflectem em nós próprios. Os psicoanalistas constituentes que queremos a mudança, ou pelo menos, nos negamos a ser cúmplices do jubileu no qual as transacionais da psicoanálise dão por fechada a questão, não estamos vacinados contra a ideologia da opressão. Talvez a nossa saúde que consista em saber que estamos doentes, não muito menos doentes que as instituições que nos fizeram e que quiséramos ajudar a desfazer. Talvez a nossa saúde que consista em confiar sem limites no poder innovador e subversivo que dispara este mundo desgraçado.
Oxalá, então, que nunca percamos a saúde!
Oxalá que nunca deixemos de tentar o que desejamos!
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